sexta-feira, maio 25

História roubada a um amigo de Erasmus

Durante os meus 6 meses de Erasmus na Bélgica, conheci um brasileiro que morava na minha residência e que tinha feito a licenciatura em Oxford, estando na altura na Bélgica a fazer o mestrado em Biotecnologia.

Entretanto, completou os seus estudos e voltou a Brasil, onde penso que se encontra agora. Ele também tem um blog, que já não é actualizado há algum tempo, que tem posts deliciosos, e é exactamente um desses posts que aqui deixo, by Sergio de Alencar.


O japonês



É incrível como pessoas com histórias incríveis para nos contar passam muitas vezes despercebidas pelos nossos caminhos. Talvez por um low profile destas pessoas ou, muitas vezes, por causa da nossa infeliz capacidade de injustamente estereotipar os outros.


Como foi o caso quando conheci Schmidt, que estudava Física comigo. Pelo fato de não falar e entender bem o inglês e estar sempre rindo de tudo, até do que não era engraçado, considerava-o uma pessoa boba, sem graça. Além disso jamais se pronunciava nas aulas, passando boa parte do tempo girando habilidosamente seu lápis com os dedos. Certa vez o professor me disse que ele estava matriculado para estudar quatro A Levels em um ano e foi aí que, além de considerá-lo como bobo, passei a vê-lo também como louco.


Por incrível que pareça, Schmidt era um japonês. Acontece que muitos orientais que vão morar na Europa adotam nomes ocidentais para facilitar a pronúncia. Assim é comum encontrar uma Jessica de Xangai, Simon do Tókio, ou até mesmo Roberto da Singapura. Uma outra tarefa tão difícil quanto pronunciar o nome de um oriental é acertar sua idade. Conheci uma vez uma tailandesa que aparentava ter uns quinze anos de idade, mas que na realidade tinha vinte e seis. Schmidt parecia ter dezessete, mas tinha vinte e oito. Imaginei qual seria a reação das pessoas se os dois se casassem e chegassem de aliança e dois carrinhos de bebê em um restaurante no Brasil.


Antes de vir estudar na Inglaterra Schmidt era músico profissional, tocava na Philarmonica de Tókio, e conhecia mais sobre música brasileira erudita do que todos nossos avós juntos. Me apresentou pela primeira vez a Antonio Villa Lobos, Egberto Gismonti, e inúmeros outros, e sou muito grato por isso. Sabia tocar vários instrumentos musicais, e pude comprovar seu dom de músico ao escutá-lo tocar o violão. No entanto há alguns anos, Schmidt começou a sentir fortes dores no pulso direito quando tocava o violão, e procurou um médico. Foi diagnosticado um problema muscular que o impossibilitaria de tocar por muitas horas e vários dias seguidos. Assim sua carreira na Philarmonica japonesa foi bruscamente interrompida.


No entanto Schmidt tinha outros dons guardados os quais desconhecia. Forçado pelos pais a deixar o Japão e estudar na Inglaterra, fato que não consigo compreender, pois o Japão possui muitas universidades excelentes, ele decidiu buscar uma vaga em Arqueologia em Oxford. Detalhe, Schmidt não estudava há mais de dez anos, desde que havia iniciado carreira como músico.


Certa vez estávamos na biblioteca da escola fazendo a tarefa de casa, quando um grupo de russos chegou e se sentou a uma mesa ao lado. Não conseguíamos nos concentrar com o barulho vindo de lá, e após pedí-los várias vezes que fizessem menos barulho, Schmidt resolveu também se pronunciar, mas desta vez em russo, para minha surpresa. Ao perguntá-lo onde aprendeu, me disse que havia morado em uma pequena cidade no leste da Rússia, para onde foi com o objetivo de aprender esta complexa língua. Me disse que foi uma experiência dura, principalmente por ser japonês e por isso discriminado. Me dizia que às vezes gangues o levavam para florestas e o enchiam de pancadas, deixando-o caído por lá sem ninguém para ajudá-lo.


Apesar de todas as barreiras conseguiu três As e um B em Física, Matemática, Estatística e História e foi aceito por Oxford.Schmidt me deu várias lições de vida, a maior delas foi sua perseverança, sua vontade e força de superação em situações adversas. Sob forte pressão familiar, emocional, cultural, conseguiu absorver tudo isso e conseguiu um lugar na prestigiosa Oxford.


by Sérgio de Alencar

Sunny friday!!!!

Are you having a sunny friday?

segunda-feira, maio 21

Férias felizes | Animais felizes


Este é o lema de uma campanha da Liga Portuguesa para os Direitos dos Animais para este Verão.

E porque um blog não deve ser exclusivamente para expor estados de de humor, resolvi dar a conhecer uma campanha muito interessante que esta associação resolveu lançar.

Trata-se de arranjar anfitriões para permanecerem com os animais enquanto os seus donos vão de férias.

Tendo em conta que os hotéis para animais costumam ser bastante dispendiosos, esta solução pode ser bem mais económica evitando os abandonos tão frequentes nestas alturas do ano.

Como está no site: "Nesta lista encontra algumas das localidades onde voluntários podem ficar com o seu animal. Todos os dias há novas ofertas, logo, mesmo que não encontre aqui a sua área de residência, contacte-nos".

quinta-feira, maio 17

Histórias de uma vida


Estava naquela cadeira de rodas há três anos, vencido pelo cansaço de uma vida repleta de actividade. Talvez tenha sido exactamente essa vida fulgurante que só é reservada aos mais insatisfeitos que lhe esgotou toda a energia física mas o seu rosto iluminado pelo Sol da manhã transmitia uma tranquilidade própria de quem chega ao cume de uma montanha, após uma longa caminhada, com acesso a uma vista panorâmica sobre o Mundo.

Os seus 73 anos eram agora vividos de memórias de uma vida preenchida de recordações e de hábitos de uma vida que iam endurecendo com o passar dos anos.

A paciência para as pombas que teimavam em povoar a sua varanda de eleição era cada vez menor, pelo que desenvolvia esquemas cada vez mais sórdidos e cruéis para as manter afastadas.

O último episódio despoletou uma verdadeira guerra familiar, pois resolveu trazer dois gatos da rua à revelia da sua mulher, que era alérgica, para caçarem as pombas que tanto o atormentavam.

Depois de duas horas de grande discussão, com a mulher a ameaçar sair de casa para ir viver com a filha mais velha, lá resolveu condicionar a existência das duas criaturas à sua varanda, submetendo-os a um espaço de 15 m2 e proporcionando-lhes uma dieta pobre como forma de potenciar o seu espírito caçador…

terça-feira, maio 15

Aceitam-se sugestões para festas de anos interessantes



Dentro de duas semanas volto a fazer a minha festa de anos. No ano passado o acontecimento deu-se no PeNu, na Costa da Caparica, uns dias após o ataque de borboletas e uns meses antes de a praia desse bar ter desaparecido.
Ou seja, em boa hora fiz por lá a minha festa de anos porque hoje em dia isso já não seria possível!

A grande questão que se coloca é onde fazer a nova festa de aniversário. Aceitam-se sugestões de lugares diferentes, que saiam um pouco da rotina do jantar e saída, sem mais…

Tenho em andamento um pedido de orçamento para uma festa diferente, para os lados do Cartaxo, que contaria com jantar numa quinta, com bebidas incluídas, dormida por lá e banhos de sol de piscina no dia seguinte.

O mais provável é que o valor seja proibitivo, por isso volto a fazer o apelo! Informem-me de programas interessantes a um valor ainda mais interessante, por favor!!!

quinta-feira, maio 10

O drama das pombas!

Durante a minha estadia num cliente onde estou a trabalhar, tenho observado atentamente uns bichos a que nunca prestei muita atenção, e que despertam quer ódio quer paixão por parte da população portuguesa. Estou a falar das pombas, que abundam na Baixa Lisboeta e na Av. da Liberdade.
Durante as minhas paragens para um ou outro cigarro, costumo ir para umas escadas exteriores onde se desenrolam as mais variadas histórias entre esta população avícola, designadamente as relacionadas com o seu ciclo de reprodução.
Acompanhei durante algumas semanas o desenvolvimento de uma cria até ao seu estado adulto, suportado por dois pais extremosos que aturavam todas as birras inimagináveis do adolescente.
Nesta fase, à falta de melhor, tenho observado as relações amorosas que se estabelecem no pátio, onde o macho se avoluma em relação à fêmea, eriçando as suas penas, acompanhando com uns passos de dança muito engraçados, a fazer lembrar uma valsa de Viena.
Por vezes tem sorte, mas na maioria das vezes elas continuam a fazer o seu percurso fingindo ignorá-los.
Já percebi que se estiverem interessadas, a certa altura em vez de ser o macho a ter o ónus de perseguir a fêmea para todo o lado, começa ela a ter a iniciativa de o acompanhar nas suas deslocações.
E claro, a certa altura, já tenho visto sessões de sexo desenfreadas, com muitos beijinhos à mistura, coisa que só tinha visto antes com os meus periquitos.
Mas este carinho todo entre os casais levou-me a pensar no terrível que seria de um par se perdesse do seu companheiro.
E claro que como a mentalidade humana só consegue imaginar o que está à sua volta através da observação de si mesmo, comecei a pensar se seria possível isto acontecer com a espécie humana.
Nos dias de hoje, com o advento do telemóvel, a possibilidade de alguém perder o contacto com a pessoa amada são muito remotas, e só possíveis se esse for o seu desejo.
Mas se pensarmos na geração dos nossos pais e avós, que não tinham telemóveis, e-mails e muitas vezes telefone, embora a hipótese de não voltarmos a ver a pessoa amada aumentasse substancialmente, continuava a ser remota, porque as pessoas vivem em casa, trabalham num determinado emprego, dão-se com determinados amigos e pertencem a uma família, pelo que existem imensos fios de novelo por onde puxar até voltar para ao pé da pessoa desejada.
E aqui se levantou a minha questão. E as pombas? Como é que elas fazem? Será que basta uma delas estar com sede e fugir para uma fonte próxima para eventualmente nunca voltarem a ver o seu companheiro?
Há que ter um enorme respeito pelas pombas e por todos os seres que vivem neste mundo que com uma grande dose de probabilidade vão perder os seus companheiros ao longo da sua vida, nunca mais os podendo voltar a encontrar…

quinta-feira, abril 19

Opções gastronómicas

Sempre que almoço para os lados do Saldanha, costumo optar por um de dois restaurantes: 1) Antigo Cup & Cino e actual Vá-se-lá-saber-o-quê e 2) Não-me-lembro-do-nome-agora e fica no inicio da Rua Actor Taborda (também muito conhecida por rua do Cinebolso), logo no início da rua à direita de que quem vem a descer a Casal Ribeiro.

Depois desta introdução geográfica, vou-vos tentar explicar as qualidades e defeitos de um e outro. Eu diria que eles são antagónicos, e posso adiantar que nuns dias apetece-me ir a um e noutros dias a outro.

O Cup & Cino, no que se refere ao menu, dá-nos a basicamente um oferta na área da junk food. Tendo em conta o regime anti-colesterol que tenho andado a seguir, o menu que peço sempre poderia eventualmente chamar-se menu verde, porque peço uma lasanha verde, acompanhada de um chá verde, e por fim, um café castanho.

No que se refere ao serviço, temos empregados geralmente solícitos, que nos trazem a comida com alguma destreza, desde que não estejam na hora de mudança de turno. Numa dada ocasião houve um empregado que decidiu que não me podia servir porque o turno dele estava mesmo a chegar ao fim, pelo que tive de esperar que um novo empregado entrasse ao serviço.

Quanto ao espaço, temos decoração diversificada, moderna, jornais para ler, muita luminosidade e pessoas jovens e descontraídas.

No que se refere ao Não-me-lembro-do-nome-agora, estamos na presença de um restaurante onde de come uma comida muito variada, sempre com pratos do dia diferentes. Eu peço sempre bifes de peru grelhados acompanhados de arroz, que é um prato delicioso e farto. Bastante diferente do mini-prato do Cup & Cino, onde após duas garfadas já temos o prato a meio.

O serviço é muito peculiar. Temos um único empregado, que é o dono do restaurante, e com o qual simpatizo bastante. Tem os seus 50 e muitos anos, e anda de um lado para o outro a servir as suas 20 mesas. Sempre que vou lá já sei que nem vale a pena pedir a conta. Dirijo-me directamente ao balcão e rezo para não demorar mais de 10 minutos para que ele tenha disponibilidade de me dar o troco de volta.

Na cozinha está a mulher dele, e os pedidos dos clientes são disparados para a cozinha pelo dono do restaurante.

O espaço é de uma pobreza franciscana, completamente desactualizado e em estado avançado de deterioração. Mas o dono do restaurante tem uma forma bastante pragmática de o pôr como “novo”.
A título de exemplo, o balcão tem aquelas típicas filas de cadeiras associados e amovíveis, onde noutros tempos deveriam comem algumas pessoas ao balcão. Hoje em dia já ninguém se senta por lá, pelo que os estofos já estão rasgados e num ou noutro caso já não consta a cadeira. Apenas o tubo de metal a que estava soldada.
O dono do restaurante, com medo que alguém se ferisse naquele tubo de ferro afiado, e recorrendo ao seu pragmatismo extraordinário, resolveu partir duas garrafas de plástico pela metade e pô-las invertidas em cada um dos canos, para ninguém se poder magoar. Ganha-se em segurança, perde-se em estética. Este segundo conceito de estética é quase de certeza uma palavra a que o dono do restaurante se vai dedicar numa outra passagem pela Terra, porque me parece que hoje em dia ele não se preocupa muito com isso.

Voltando à descrição do espaço, posso dizer-vos que no Inverno faz imenso frio (porque não há aquecimento) e no Verão faz imenso calor (porque não há ar condicionado).
É bastante escuro e sombrio, e o mobiliário é já muito antigo. Os menus são escritos todos os dias à mão e vêm dentro de umas cartas de menu oferecidas pela Coca-cola. Mais uma vez o senhor pensou? Porque é que eu hei-de ter uns menus todos bonitos com o nome do restaurante e tal, se posso aproveitar os que a Coca-cola me oferece? Pragmatismo é a palavra de ordem neste restaurante.

No que se refere aos visitantes do espaço, são maioritariamente pessoal de escritórios das redondezas.

O que me leva a vir a este espaço de vez em quando ainda não percebi muito bem o que é… Pelo preço não é de certeza, porque é semelhante ao do Cup & Cino… Acho que é mesmo simpatia pela singularidade do espaço e do dono do restaurante e pelo ambiente kitsch …

quinta-feira, abril 12

Mistério por desvendar!


Será que hoje foi o 1º dia do resto da minha vida, que o Sérgio Godinho tanto anuncia?
A responder brevemente...

sábado, fevereiro 24

Negócios da China

No outro dia, em conversa com colegas de trabalho, e numa verdadeira viagem na maionese, lembrei-me de uma ideia de negócio que decidi partilhar com todos vós, leitores do meu recatado blog. A ideia é desafiar-vos a fazer dela o vosso negócio...

Antes de mais, devo avisar os mais susceptiveis de que a ideia é absolutamente capitalista, e visa explorar os trabalhadores. Procura maximizar o lucro das empresas, através da redução dos seus custos fixos.

Contextualizando um pouco, esta ideia seria aplicável a todas as empresas, já que todas as empresas têm empregados.

Seria claramente mais apelativa às grandes empresas, que têm um número maior de empregados.

Se olharmos para o processo de recrutamento das empresas, podemos dividi-lo, temporalmente, em: colocação do anúncio de oferta, recepção de candidaturas, análise de candidaturas, 1ª fase de entrevistas, 2ª fase de entrevistas... última fase de candidaturas e contratação.

A ideia seria aplicável na última fase de candidaturas, na qual já estavam seleccionados um leque de pessoas que já preenhiam os requisitos básicos do empregador.

Nesta altura, o empregador procura o empregado ao melhor preço, ou seja, a quem tenha de pagar menos.

Para profissões mais indiferenciadas, que requeiram menos qualificações, o critério de selecção é quase exclusivamente o salário que o empregado estará disposto a auferir.

Desta forma, o conceito que acho que poderia resultar seria um leilão invertido de salários.

Neste leilão estariam presentes todos os candidatos que já preenhessem todos os requisitos não financeiros para o cargo a ocupar e "lutariam" pela sua posição disponibilizando-se para receberem um salário inferior.

Desta forma, teriamos uma base de licitação do ordenado em 1000€, com o Zé Manel no minuto 1 a licitar 950, seguido do Chico no minuto dois a gritar 900€... acabando a licitação nos 700 € para o Zé Pedro, que será o empregado escolhido.

É perverso, mas eu acho que ia resultar!

PS - Peço desculpa, mas já estava há muito tempo para escrever no blog e não estava com muitas ideias...

domingo, janeiro 28

Escritórios dos tempos modernos

Os escritórios estão de facto equipados a rigor para reduzir ao mínimo a nossa imaginação. Cores ténues, esquemas de cadeiras e mesas repetitivas, silêncio… Sem nos apercebermos se calhar o suficiente, isto são as linhas de montagem do taylorismo adaptadas aos tempos modernos. Tudo a bem da produtividade e dos aumentos de eficiência.

Abro desde já aqui um parêntesis para afirmar que tenho noção de que os ambientes de trabalho não são necessariamente assim em todas as profissões, mas refiro-me ao trabalho de escritório, onde boa parte dos colegas que tenho se insere

De facto, esta guerra desenfreada pela produtividade quase de certeza que é incontornável, pois vivemos num mundo global, em que as empresas competem livremente e onde o Estado já não dita as regras.

Assim sendo, ou bem que as empresas portuguesas se evidenciam em relação às suas congéneres, ou acabamos todos sem trabalho, o que não me parece uma boa solução.
Inventar uma espécie de grito do Ipiranga, e instaurar um conjunto de medidas de controlo do Estado no sentido de garantir um pouco mais de humanidade nas nossas empresas seria também uma má ideia, que nos levaria uma vez mais a uma situação difícil para o país.

Mas olhando para o meu caso em particular, digo-vos que não me importava nada de ceder 30% do meu ordenado para ter menos 30% de tempo ocupado com o trabalho. Eram só vantagens em boa verdade. Esses 30% nem se iam fazer sentir já que eu sou daquelas pessoas que por falta de tempo fazem consumos completamente irreflectidos e supérfluos.

Se tivesse mais serenidade de espíritos e menos stress acumulado iria gastar o meu dinheiro de uma forma muito mais racional e reflectida.

Só tinha a ganhar com isso.

sexta-feira, janeiro 12

O segredo da imortalidade


No outro dia pus-me a pensar e cheguei a uma conclusão. Só morre mesmo quem quer. Ou seja, só desaparece da face da Terra quem não se mexe…
Pode parecer absurdo mas não é! Cheguei a esta conclusão quando discutia com um colega de trabalho sobre questões relacionadas com a memorização. Estávamos a falar sobre que existem algumas pessoas que conseguem fixar uma enormidade de informação com aparente facilidade. Ao que soube no decorrer da conversa, existe um senhor que consegue reproduzir uma sequência de 52 cartas de jogar com apenas uma observação. Basicamente, se nós pegássemos num baralho de cartas e o baralhássemos, e distribuíssemos as 52 cartas numa dada sequência, o senhor conseguia reproduzi-las. Ele dizia que a forma que arranjava para fixar a sequência era contar uma história à medida que visualizava as cartas. Do género, a rainha de copas foi tomar um café com o 7 de paus….e por aí fora. Eu avancei também com algumas teorias que tenho ouvido aqui e ali, no caso sobre que na verdade nós não fixamos os números do nosso telemóvel mas antes a melodia associada aos números ditos de uma determinada forma. Basicamente, se costumamos dizer 96 552 67 32, dificilmente conseguimos acabar de um dizer de uma forma rápida se nos pedirem para começar por 965 526… porque a sonoridade é outra. Desta conversa comecei a pensar que na verdade uma pessoa passa a vida a tentar descobrir a forma como o nosso cérebro está programado, já que aparentemente há formas mais fáceis de optimizar o nosso cérebro. No caso em questão, existem formas mais fáceis do nosso cérebro fixar do que outras. Isto resulta de milhões de anos de evolução genética, que vem numa primeira linha dos nossos pais e acaba no princípio dos tempos.
Comecei a pensar nisso, na questão de que muito do que sou eu é uma herança genética e foi aí que percebi que na verdade, já cá estou neste mundo há muitos milhões de anos…
Isto porque, se pensarmos bem, o ser humano que é cada um de nós é o resultado do cruzamento de material genético vivo, o óvulo e o espermatozóide. Ou seja, há um bocadinho de material genético vivo que foi passado do corpo dos nossos pais para nós, da mesma forma que já passou também dos nossos avós para os nossos pais, e por aí forma….
É incrível pensar desta forma, mas nós já estamos neste Mundo há muito tempo.
Daí a introdução de que em boa verdade só morre quem quer, na medida em que é sempre possível (na generalidade), deixar-mos um pouco de nós por muitos mais anos…

terça-feira, dezembro 19

As férias tão próximas...

Nem quero acreditar que daqui a apenas 3 dias vou iniciar um período de 10 dias de férias. É bom demais para acreditar!!! Finalmente um tempinho para descansar desta rotina agitada. Quando andava na escola, onde o tempo passava mais devagar, tinha tempo para apreciar todos os espaços de forma mais detalhada e descontraída. Se fosse a caminho da escola, apanhava a camioneta e depois o metro e pelo percurso andava serenamente a observar as pessoas, a sentir os solavancos provocados pelo motorista, a observar as mudanças da chegada ao Outono, a sentir o frio que se fazia, a recostar-me e a sentir as minhas costas no banco… Depois já na escola, era procurar a sala de aula e observar as caras conhecidas dos meus colegas, ir pôr a mochila ao lugar, estar um pouco na conversa sentados em cima das mesas e depois uma correria quando alguém anunciava a chegada da professora…
Depois, era aquela atitude passiva de ouvir a professora a debitar matéria, ir escrevendo os apontamentos que achássemos interessantes, ir rabiscando uns desenhos, ir trocando dois dedos de conversa com os colegas de turma e passada a manhã estávamos no almoço… Nessa altura, quando ainda estava no colégio, tínhamos o hábito de ir almoçar pouco antes de terminar a hora de almoço, evitando desta forma a fila que inicialmente era monstruosa, assumindo depois as freiras a faceta monstruosa chateando-nos a dizer que já estavam a fechar o refeitório e que tínhamos de passar a vir mais cedo. Foram 6 anos a dizer que amanhã é que era, e foram 6 anos a fazer o mesmo esquema. Muito bom.

Depois era iniciar a tarde, com as salas bem iluminadas, o Sol a passar entre os estores… Sempre fui daqueles que adorava o Sol a passar entre os estores, mas havia sempre alguém que se sentia incomodado com tanta luminosidade. Ainda hoje, provavelmente pelo facto de estar sempre num open space sem luz natural, e não contactar com ela nos meus dias, quando vou de manhã a subir a Calçada de Carriche não ponho a pala para baixo quando o Sol me encandeia os olhos, porque claramente prefiro ir mais devagar e ter mais dificuldade a conduzir a perder aqueles 2 minutos de vitamina E.

O que o entardecer nos reservava era o caminho inverso ao da manhã… a não ser que houvesse as tão desejadas reuniões de pais. Quando haviam, ficávamos no colégio até mais tarde e estava criada a atmosfera necessária para umas conversas mais soltas, onde as expressões das caras à nossa volta não vão muito além de silhuetas, onde ruborizar não era visível e onde os risos saem mais sonoros sem o ruído dos dias…

As férias representam para mim um regresso a tudo isso, a um nível de stress mais aceitável, a uma cabeça mais limpa, a um corpo menos pesado e rígido...

quarta-feira, dezembro 13

Desenhos inocentes...







Estes desenhos poderiam revelar uma paz de espírito e uma candura impressionantes...

Pertencem a Angelo Buono, Charles Ng, Gerald Stano, Harrison Graham e Herbert Mullen aos quais estão associados os números 10, +25, 41, +7 e 13.

Estes senhores são conhecidos Serial Killers e os números são o número de mortes de que eles estão acusados.

Incrível não é?

Vejam mais pormenores em http://www.yuppiepunk.org/2005/01/killer-art-serial-killer-art-review.html

terça-feira, dezembro 12

What if...

Às vezes dá-me vontade de escrever ao desafio. Não influenciar em nada as ideias que vão surgindo em catadupa. Não censurar nada. Deixar apenas fluir… Em tempos, achei que não devia ler livros porque dessa forma poderia ter uma escrita cristalina e completamente original. Mas agora já não há nada a fazer. Já me contaminei com livros e jornais o suficiente.

Por vezes penso também que seria interessante fazer o exercício de escrever sem nenhuma lógica, tornando a escrita como um exercício de estado de alma, sem nenhum propósito de parecer coerente e escorreita, sem uma parte introdutória que induza as conclusões finais, através de induções ou deduções orquestradas.
O problema é que textos sem objectivos podem ser um pouco vazios de interesse, não passarem mensagem nenhuma. Seriam basicamente de consumo rápido e rapidamente seriam esquecidos.

Acho que vou começar a fazer uns textos desse género, e depois comprometo-me apenas a corrigir erros ortográficos ou gramaticais, mas prometo não censurar as ideias…

segunda-feira, dezembro 4

Madrid me encanta


Primeira visita oficial e tenho a dizer que gostei muito de Madrid. Gostei tanto de Madrid que resolvi aproveitar ao máximo tudo o que a cidade tinha para oferecer, principalmente no que se refere à sua noite fantástica. Esta opção noctívaga trouxe apenas o inconveniente de não me permitir relatar como foram os meus dias por lá, por grave amnésia e entorpecimento provocado pelo álcool. Não consigo referir o nome de um único restaurante, bar ou discoteca por onde passei. De resto, lembro-me apenas do nome de duas ruas principais, o Paseo de la Castellana e a Gran Via, e da rua onde fiquei instalado que se chamava Calle Cervantes.

Ainda assim, vou relatar acontecimentos esporádicos e situações de que me lembro, sem arriscar o seu enquadramento no tempo e por vezes no espaço.

Consegui dar um pulo ao Thyssen-Bornemisza Museum of Art, que tinha uma colecção organização por ordem de antiguidade. Começava no 2º andar com quadros do Século XI da escola italiana, francesa e flamenga e terminava com arte moderna, passando pelo meio por pintores norte-americanos do Século XIX.
O meu fim-de-semana cultural ficou-se por esta visita... Conheço pessoas que sempre que visitam uma cidade deixam algum museu ou espaço por visitar, de forma a deixarem um teaser para uma próxima visita. Posso sempre pensar, para não me deixar preencher por um sentimento de culpa, que estou muito mais profissional e estou a dar-me a oportunidade de não uma mas várias próximas visitas.

Adorei os madrilenos, que são muito simpáticas, adorei as tapas que acompanhavam as imperiais, e achei piada à quantidade de brasileiros que se querem fazer passar por madrilenos mas que rapidamente são apanhados ao fim de duas ou três palavras.
Houve um brasileiro, que estava a distribuir flyers no meio da rua para aliciar as pessoas para um determinado bar, que me esteve a explicar que em Madrid se ganhava mais do que em Lisboa… o que eu já suspeitava. Mas o que eu achei piada foi um desabafo que o senhor fez em relação à situação dos imigrantes brasileiros em Portugal.
O senhor veio com a seguinte pérola, e passo a citar (convém ler com sotaque brasileiro): “Cara, me disseram que em Portugal a Policial Federal (?!?!?) está expulsando os imigrantes brasileiros ilegais….”.

quarta-feira, novembro 29


Sabem aquela sensação limite em que temos várias coisas para fazer, cada um delas objectivamente fácil de fazer, mas que todas juntas nos transmitem uma sensação de nebulosidade no horizonte, toldando-nos os movimentos físicos e psíquicos, fazendo-nos mergulhar na apatia misturada com uma ansiedade muito grande?

É exactamente isso que estou a sentir durante o dia de hoje, e cada vez que faço o exercício de listar as tarefas, prioritizá-las e pegar na primeira, ao primeiro embate desanimo e volto ao estado geral de strogonoff mental.

Acho que estou a precisar de umas férias, ou quem sabe de um reboot ao meu peculiar cérebro…

terça-feira, novembro 28

Estória ou história, eis a questão...

Estava prestes a contar-vos uma história e parei logo nas primeiras linhas para de uma vez por todas desmistificar a utilização do termo história ou em alternativa o termo estória. Perdeu-se uma história (termo que a partir de agora passo a utilizar com mais orgulho e fundamento) e ganhou-se um pouco mais de bom português!
Aqui ficam as palavras do nosso amigo Cláudio Moreno, que não deve ter mais nada para fazer mas ainda assim o que faz faz bem.

A história de "estória"*
Cláudio Moreno**

Perdi a conta dos leitores que me perguntam sobre a famigerada estória. Uns querem saber se realmente existe essa distinção entre estória e história. Outros teriam ouvido que a palavra existiu outrora, mas hoje seria considerada arcaica. Há quem especule que estória tenha nascido de um erro de tradução. Quase todos perguntam se é uma distinção útil e necessária, ou se não passa de supérfluo balangandã. Peço perdão àqueles que fiz esperar, mas aqui vai minha resposta a todos.

Foi João Ribeiro, forte conhecedor de nosso idioma, quem propôs a adoção do termo estória, em 1919, para designar, no campo do Folclore, a narrativa popular, o conto tradicional, objeto de estudo dos especialistas daquela área. E não se tratava de inventar, mas sim de reabilitar (hoje usariam o horrendo resgatar...) uma forma arcaica, comum nos manuscritos medievais de Portugal. Era uma ingênua proposta, paroquial, nascida da inveja compreensível que causa a distinção story - history do Inglês; sem ela, alega o próprio Luís da Câmara Cascudo - para mim, um dos escritores que mais contribuíram para nossa língua -, não se pode entender frases como "Stories are not History", ou títulos como "The History of a Folk Story". Que o mestre Cascudo me perdoe: a intenção era boa, mas sem nenhum fundamento lingüístico.

Em primeiro lugar, a estória medieval não era um vocábulo diferente de história; era apenas uma das muitas variantes que se encontram nos textos manuscritos de nossos copistas, naquele tempo heróico em que a estrutura de nossa ortografia ainda lutava para sedimentar. Ali aparecem história, hestória, estória, istória, estórea (ainda não se usavam os acentos, que são de nosso século, mas não pude resistir). Da mesma forma, vamos encontrar homem, omem, omee (algumas vezes com til no primeiro e) e até ome. Nota-se que o emprego do "h" e das vogais ainda não estava estabilizado na escrita. Entretanto, já no séc. XVI - em Camões, por exemplo - a grafia de homem e história era a que é usada até hoje. Outras línguas da família latina, como o Espanhol e o Francês, também experimentaram essa variedade de formas para história, mas terminou prevalecendo a forma única (historia e histoire, respectivamente).

Em segundo lugar: grande coisa se o Inglês pode fazer a distinção entre story e history! E daí? Como o folclórico Napoleão Mendes de Almeida nos lembra, eles também distinguem entre can (poder, conseguir) e may (poder, no sentido legal e ético): "You can, but you may not" é uma rica frase em Inglês que só poderíamos traduzir com um aproximado "Você pode, mas não deve". Esse autor, que abominava estória, pergunta ironicamente: "Se curtos de inteligência foram nossos pais em não terem descoberto essa história de "estória", curtos de inteligência continuamos todos nós em não forjarmos distinção gráfica e fonética para "poder", para "educação", para "raio", para "oficial" e para outros vocábulos de formas diferentes em Inglês, como curtos de inteligência são todos os outros idiomas que têm palavras com mais de uma significação".

Dessa vez Napoleão bateu no prego e não na tábua. Uma olhada no meu Oxford e me dou conta que para nosso raio, por exemplo, o Inglês tem (1) ray (onde temos "raio de luz", "pistola de raios"), (2) radius (o "raio de um círculo") e (3) lightning (a "descarga elétrica"). É mais do que comum o fato de uma língua fazer distinções vocabulares que outras não fazem. Como tive a oportunidade de mencionar em outro artigo (Atravessando o Canal da Manga), o Espanhol designa com um único vocábulo (celo, celos) o que nós distribuímos por três: zelo, cio e ciúme. Invejamos o story do Inglês? Eles então devem ficar verdes diante de nosso ser e estar, distinção fundamental na vida e na Filosofia, que eles simplesmente desconhecem. Assim são as línguas humanas, na sua (im)perfeição.

Além disso, os amáveis folcloristas que defendiam estória pensavam apenas em distinguir "a História do Brasil das Histórias da Carochinha". Do ponto de vista lingüístico, erraram por todos os lados. Primeiro, erraram porque essa não é uma distinção útil, que justifique sua defesa. O português José Neves Henriques, o severo e consciencioso JNH do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa (já falei sobre ele na seção de Links***), condena essa invenção "brasileira" (ele tem razão: é coisa nossa), tachando-a de "uma palermice, porque, até agora, nunca confundimos os vários significados de história. O contexto e a situação têm sido mais que suficientes para distinguirmos os vários significados". Certo o professor Henriques, errados os folcloristas: ninguém vai confundir a história de um país com a história do bicho-papão.

Segundo, erraram porque enxergavam apenas dois pólos bem definidos: a história que se refere ao passado e ao seu estudo, e a estória da narrativa, da fábula. A experiência nos diz que essas invasões de searas alheias geralmente pecam por um raciocínio simplista, reducionista. Quem mexe no que não entende, termina fazendo bobagem... e não deu outra. Nossos estudiosos não perceberam que a distinção sugerida, apetecível do ponto de vista deles, acabaria criando incertezas e hesitações em frases corriqueiras como "Deixa de histórias!"; "Essa já é outra história"; "Que história é essa?"; "Eu e ela temos uma velha história". Qual das duas formas usar? Por tão pouco benefício, por que assombrar ainda mais os que escrevem em Português? Faço questão de frisar "os que escrevem" - porque aqui, também, reside outra falha da proposta de João Ribeiro: as duas formas não seriam distinguíveis na fala, já que a realização da vogal "E" inicial de estória é geralmente /i/ (como em espada, esperto, etc.). Ambas seriam pronunciadas da mesma maneira: /istória/. E quantas outras palavras, derivadas de história, deveriam ser alteradas? Historieiro? Historiento? As historietas passariam a ser estorietas? Os aficcionados em quadrinhos passariam a usar EQ em vez do consagrado HQ? Como se vê, "muito trabalho por nada", como reza a comédia de Shakespeare.

De qualquer forma, o uso de estória poderia ter ficado confinado ao mundo do Folclore, onde talvez fosse de alguma utilidade. Afinal, não é incomum que certas áreas do pensamento postulem, para uso exclusivo, vocábulos novos ou variações fonológicas ou ortográficas de vocábulos antigos, no afã de obter maior precisão em seus conceitos. Isso se verifica, por exemplo, na Filosofia, na Lógica, na Lingüística, na Psicanálise (onde me chama a atenção a impressionante inquietação lingüística dos lacanianos). Como é natural, essas variantes vão fazer parte de um código específico, cujo emprego passa a ser indispensável para os especialistas dessa área, mas não entram no grande caudal da língua comum. A criação, a utilização e, muito seguidamente, a agonia e morte dessas formas são registradas em discretos dicionários especializados, convenientemente isolados do grande rebanho representado pelos dicionários de uso.

Infelizmente, como nos piores pesadelos dos ecologistas, estória rompeu as cercas de segurança, saiu do pequeno rincão do Folclore e invadiu nossas vidas. O responsável por isso foi João Guimarães Rosa (pudera não!). Como escreve meu mestre Celso Pedro Luft, com uma ponta de inesperada ironia, Rosa decidiu "glorificar, imortalizar a ausência do agá: Primeiras Estórias. Corriam os anos de 1962. Primeiras estórias ... todos os fãs do mineiro imortal ficaram absolutamente alucinados. E foi estória para cá, estória para lá, estória para todos os lados. Uma epidemia. Perdão, uma glória". Depois, em 1967 veio Tutaméia, com o subtítulo "Terceiras Estórias", e o póstumo Estas Estórias, publicado em 1969. Muito tem sido escrito sobre a inovação da linguagem rosiana; a sintaxe de seu narrador é, a meu ver, a criação literária do século. No entanto, sou obrigado a observar que, em termos não-literários, essa inovação é zero. Nenhuma das palavras montadas, deformadas ou inventadas por ele jamais será usada, a não ser por imitadores (que já andam escasseando...). É uma linguagem só dele; funciona admiravelmente no universo de sua obra, mas é seu instrumento pessoal, e nunca será nosso. Ouso dizer que a única influência rosiana no Português foi a divulgação desse equívoco que é estória. Tenho certeza de que Guimarães Rosa, místico de quatro costados, entenderia: deve ser vingança dos deuses da Língua.

sexta-feira, novembro 17

Na escola e no trabalho, tens amigos comó caralho!

Costuma-se dizer que nos tempos de escola é que era! O tempo para não fazer nada, o tempo para fazer tudo, o tempo para estar com os amigos…
E é precisamente nesta última parte que eu me quero reter. Amigos que se fazem na escola. Amigos que não se fazem no trabalho. Porque os amigos do trabalho não se escolhem. Mas também não se escolhem os amigos de escola. E os amigos de escola são nossos amigos e nós somos amigos deles. Acho que a única coisa que muda são as pessoas, não são as situações. Eu também já mudei. Costuma-se dizer que as pessoas evoluem… Será mesmo assim? Será que evoluir é mesmo ganhar a maturidade suficiente para dizer meia dúzia de coisas estúpidas a um colega e não ter o mínimo de ressentimentos, ou inversamente ouvir um gajo a chagar-nos a cabeça e manter a cabeça fria? Será que isso não é roubar-nos os instintos mais básicos e tornar-nos seres frios e calculistas? Costuma-se dizer: “…mas tem que ser…senão não sobrevives.” E eu sei que isso é verdade, mas não queria que fosse assim…

sexta-feira, novembro 10

Saudades dos tempos em que tinha tempo

Ontem aproveitei o facto de estar pelo escritório com pouco trabalho (pelo facto de não estar de momento envolvido em nenhum projecto) para sair um pouco mais cedo.
Estava a pensar ir para casa mas resolvi sentar-me numa esplanada em pleno centro de Lisboa a beber uma imperial.
Desci a Casal Ribeiro até ao Largo da Estefânia, e virei à esquerda para a Rua de Dona Estefânia.
Parei numa tasca tipicamente portuguesa, que tinha umas mesas verdes metálicas cá fora, numa rua de árvores grandes e frondosas, com imensa gente a subir e a descer.
Passaram velhotes, passaram casais jovens, passaram grupos de amigos, saíram pessoas de carros que lhes tinham dado boleia, passou um casal muçulmano de certeza recém aterrado em Lisboa, passaram para cima e para baixo dois jovens a acartar pufs e cadeiras em aparente mudança de casa. Enfim, uma montra de histórias ali a desenrolar-se à minha frente.
Já a meio da minha segunda imperial, juntou-se à mesa do lado um grupo de 4 amigos, 3 rapazes e uma rapariga, que estavam sempre na conversa. A partir daí, fiquei deliciado a ouvir a conversa deles.
Aquelas conversas despretensiosas de quem não tem muitas preocupações e está a rir de 10 em 10 minutos…
Apenas um deles era de Lisboa, ao que percebi, e os outros tinham vindo todos fazer a faculdade cá.
Tinham todos algum sotaque e a certa altura começaram a falar de que existia a ideia generalizada de que o sotaque em Lisboa era o sotaque padrão e que os lisboetas achavam que não tinha sotaque. Mas tinham!!! Andavam lá num bate boca e vinha a gargalhada generalizada 5 minutos depois.
Estava mesmo ao pé deles, mas devia parecer a 2 mundos de distância porque olhavam para mim com alguma reverência pelo facto de estar engravatado.
Mal sabiam eles que me estavam a servir a refeição perfeita para acompanhar aquelas imperiais. Uma refeição de boa disposição e juventude, cabeça limpa e desanuviada, a sensação de despreocupação.

segunda-feira, outubro 30

Direito à vida com dignidade

Durante as minhas férias, um amigo meu emprestou-me um livro muito interessante, que se intitula Freakonomics. Trata-se de um livro de um escritor que pertence a uma nova geração de economias que pretende descomplicar os conceitos associados à Economia utilizando exemplos concretos e fáceis de perceber pelo leitor. Entre outras coisas aborda a temática de como algumas decisões políticas aparentemente marginais se reflectem enormemente no dia a dia das pessoas.
Passo a explicar. Um dos episódios retratados no livro fala sobre clima de insegurança crescente que se vivia nas ruas, nos anos 90, nos Estados Unidos da América. Por essa altura, os índices de criminalidade cresciam todos os anos a dois dígitos, e todas as medidas de combate ao crime postas em prática na altura pareciam não surtir o desejado efeito. Num determinado momento, quando já não havia esperança de que alguma coisa de alterasse o rumo dos acontecimentos, a curva ascendente de criminalidade estabilizou e começou a cair em flecha até aos dias de hoje, em que os níveis são perfeitamente aceitáveis.
Na altura, diversas teorias avançaram para tentar explicar o fenómeno mas nenhuma foi demasiado consistente com excepção de uma, que ninguém estaria perto de imaginar. Alguém se lembrou de olhar vários anos para trás e perceber se encontrava alguma variável que pudesse explicar o fenómeno, chegando a uma conclusão genial: a principal causa da descida da criminalidade devia-se a uma medida tomada 20 anos antes, que tinha sido a liberalização do aborto.
Encontrada a causa, ficava muito fácil de explicar o fenómeno. De uma forma resumida, ninguém nasce com propensão para o crime, mas o meio envolvente em que as crianças de desenvolvem e os modelos que as rodeiam acabam por influenciar determinantemente o seu comportamento futuro. Assim sendo, e tendo em conta a existência do fenómeno do aborto ilegal, que era oneroso e só algumas mulheres podiam suportar, a maioria das crianças indesejadas nasciam em meios pobres e num contexto de mais violência. Ressalvando-se o facto de que mesmo uma criança pobre e indesejada, rodeada de maus modelos por vezes ser originar um adulto perfeitamente integrado e bem comportado (tal como uma criança rica pode tornar-se um adulto criminoso e violento), o que acontece é que estatisticamente uma criança que nasça num meio pobre sem ser desejada é mais propensa a praticar crimes que uma criança rica e desejada.
Tendo isto em mente, e tendo sido legalizado o aborto nos EUA, diminuiu drasticamente a quantidade de crianças com propensão à prática de crimes em adultas.
Transportando-nos agora para a realidade portuguesa, e estando na véspera de mais um referendo ao aborto, venho expressar o meu voto na liberalização do aborto, como forma de melhorar as condições sociais de todos nós.De facto, aquilo a que muitos partidos chamam de decisões sociais, como rendimentos mínimos garantidos, substituição de barracas por casas, acompanhamento social de crianças em risco, podem muito bem ser vistos como verdadeiras medidas económicas que no futuro terão como resultado uma sociedade com melhor qualidade de vida para todas as pessoas.