sábado, fevereiro 24

Negócios da China

No outro dia, em conversa com colegas de trabalho, e numa verdadeira viagem na maionese, lembrei-me de uma ideia de negócio que decidi partilhar com todos vós, leitores do meu recatado blog. A ideia é desafiar-vos a fazer dela o vosso negócio...

Antes de mais, devo avisar os mais susceptiveis de que a ideia é absolutamente capitalista, e visa explorar os trabalhadores. Procura maximizar o lucro das empresas, através da redução dos seus custos fixos.

Contextualizando um pouco, esta ideia seria aplicável a todas as empresas, já que todas as empresas têm empregados.

Seria claramente mais apelativa às grandes empresas, que têm um número maior de empregados.

Se olharmos para o processo de recrutamento das empresas, podemos dividi-lo, temporalmente, em: colocação do anúncio de oferta, recepção de candidaturas, análise de candidaturas, 1ª fase de entrevistas, 2ª fase de entrevistas... última fase de candidaturas e contratação.

A ideia seria aplicável na última fase de candidaturas, na qual já estavam seleccionados um leque de pessoas que já preenhiam os requisitos básicos do empregador.

Nesta altura, o empregador procura o empregado ao melhor preço, ou seja, a quem tenha de pagar menos.

Para profissões mais indiferenciadas, que requeiram menos qualificações, o critério de selecção é quase exclusivamente o salário que o empregado estará disposto a auferir.

Desta forma, o conceito que acho que poderia resultar seria um leilão invertido de salários.

Neste leilão estariam presentes todos os candidatos que já preenhessem todos os requisitos não financeiros para o cargo a ocupar e "lutariam" pela sua posição disponibilizando-se para receberem um salário inferior.

Desta forma, teriamos uma base de licitação do ordenado em 1000€, com o Zé Manel no minuto 1 a licitar 950, seguido do Chico no minuto dois a gritar 900€... acabando a licitação nos 700 € para o Zé Pedro, que será o empregado escolhido.

É perverso, mas eu acho que ia resultar!

PS - Peço desculpa, mas já estava há muito tempo para escrever no blog e não estava com muitas ideias...

domingo, janeiro 28

Escritórios dos tempos modernos

Os escritórios estão de facto equipados a rigor para reduzir ao mínimo a nossa imaginação. Cores ténues, esquemas de cadeiras e mesas repetitivas, silêncio… Sem nos apercebermos se calhar o suficiente, isto são as linhas de montagem do taylorismo adaptadas aos tempos modernos. Tudo a bem da produtividade e dos aumentos de eficiência.

Abro desde já aqui um parêntesis para afirmar que tenho noção de que os ambientes de trabalho não são necessariamente assim em todas as profissões, mas refiro-me ao trabalho de escritório, onde boa parte dos colegas que tenho se insere

De facto, esta guerra desenfreada pela produtividade quase de certeza que é incontornável, pois vivemos num mundo global, em que as empresas competem livremente e onde o Estado já não dita as regras.

Assim sendo, ou bem que as empresas portuguesas se evidenciam em relação às suas congéneres, ou acabamos todos sem trabalho, o que não me parece uma boa solução.
Inventar uma espécie de grito do Ipiranga, e instaurar um conjunto de medidas de controlo do Estado no sentido de garantir um pouco mais de humanidade nas nossas empresas seria também uma má ideia, que nos levaria uma vez mais a uma situação difícil para o país.

Mas olhando para o meu caso em particular, digo-vos que não me importava nada de ceder 30% do meu ordenado para ter menos 30% de tempo ocupado com o trabalho. Eram só vantagens em boa verdade. Esses 30% nem se iam fazer sentir já que eu sou daquelas pessoas que por falta de tempo fazem consumos completamente irreflectidos e supérfluos.

Se tivesse mais serenidade de espíritos e menos stress acumulado iria gastar o meu dinheiro de uma forma muito mais racional e reflectida.

Só tinha a ganhar com isso.

sexta-feira, janeiro 12

O segredo da imortalidade


No outro dia pus-me a pensar e cheguei a uma conclusão. Só morre mesmo quem quer. Ou seja, só desaparece da face da Terra quem não se mexe…
Pode parecer absurdo mas não é! Cheguei a esta conclusão quando discutia com um colega de trabalho sobre questões relacionadas com a memorização. Estávamos a falar sobre que existem algumas pessoas que conseguem fixar uma enormidade de informação com aparente facilidade. Ao que soube no decorrer da conversa, existe um senhor que consegue reproduzir uma sequência de 52 cartas de jogar com apenas uma observação. Basicamente, se nós pegássemos num baralho de cartas e o baralhássemos, e distribuíssemos as 52 cartas numa dada sequência, o senhor conseguia reproduzi-las. Ele dizia que a forma que arranjava para fixar a sequência era contar uma história à medida que visualizava as cartas. Do género, a rainha de copas foi tomar um café com o 7 de paus….e por aí fora. Eu avancei também com algumas teorias que tenho ouvido aqui e ali, no caso sobre que na verdade nós não fixamos os números do nosso telemóvel mas antes a melodia associada aos números ditos de uma determinada forma. Basicamente, se costumamos dizer 96 552 67 32, dificilmente conseguimos acabar de um dizer de uma forma rápida se nos pedirem para começar por 965 526… porque a sonoridade é outra. Desta conversa comecei a pensar que na verdade uma pessoa passa a vida a tentar descobrir a forma como o nosso cérebro está programado, já que aparentemente há formas mais fáceis de optimizar o nosso cérebro. No caso em questão, existem formas mais fáceis do nosso cérebro fixar do que outras. Isto resulta de milhões de anos de evolução genética, que vem numa primeira linha dos nossos pais e acaba no princípio dos tempos.
Comecei a pensar nisso, na questão de que muito do que sou eu é uma herança genética e foi aí que percebi que na verdade, já cá estou neste mundo há muitos milhões de anos…
Isto porque, se pensarmos bem, o ser humano que é cada um de nós é o resultado do cruzamento de material genético vivo, o óvulo e o espermatozóide. Ou seja, há um bocadinho de material genético vivo que foi passado do corpo dos nossos pais para nós, da mesma forma que já passou também dos nossos avós para os nossos pais, e por aí forma….
É incrível pensar desta forma, mas nós já estamos neste Mundo há muito tempo.
Daí a introdução de que em boa verdade só morre quem quer, na medida em que é sempre possível (na generalidade), deixar-mos um pouco de nós por muitos mais anos…

terça-feira, dezembro 19

As férias tão próximas...

Nem quero acreditar que daqui a apenas 3 dias vou iniciar um período de 10 dias de férias. É bom demais para acreditar!!! Finalmente um tempinho para descansar desta rotina agitada. Quando andava na escola, onde o tempo passava mais devagar, tinha tempo para apreciar todos os espaços de forma mais detalhada e descontraída. Se fosse a caminho da escola, apanhava a camioneta e depois o metro e pelo percurso andava serenamente a observar as pessoas, a sentir os solavancos provocados pelo motorista, a observar as mudanças da chegada ao Outono, a sentir o frio que se fazia, a recostar-me e a sentir as minhas costas no banco… Depois já na escola, era procurar a sala de aula e observar as caras conhecidas dos meus colegas, ir pôr a mochila ao lugar, estar um pouco na conversa sentados em cima das mesas e depois uma correria quando alguém anunciava a chegada da professora…
Depois, era aquela atitude passiva de ouvir a professora a debitar matéria, ir escrevendo os apontamentos que achássemos interessantes, ir rabiscando uns desenhos, ir trocando dois dedos de conversa com os colegas de turma e passada a manhã estávamos no almoço… Nessa altura, quando ainda estava no colégio, tínhamos o hábito de ir almoçar pouco antes de terminar a hora de almoço, evitando desta forma a fila que inicialmente era monstruosa, assumindo depois as freiras a faceta monstruosa chateando-nos a dizer que já estavam a fechar o refeitório e que tínhamos de passar a vir mais cedo. Foram 6 anos a dizer que amanhã é que era, e foram 6 anos a fazer o mesmo esquema. Muito bom.

Depois era iniciar a tarde, com as salas bem iluminadas, o Sol a passar entre os estores… Sempre fui daqueles que adorava o Sol a passar entre os estores, mas havia sempre alguém que se sentia incomodado com tanta luminosidade. Ainda hoje, provavelmente pelo facto de estar sempre num open space sem luz natural, e não contactar com ela nos meus dias, quando vou de manhã a subir a Calçada de Carriche não ponho a pala para baixo quando o Sol me encandeia os olhos, porque claramente prefiro ir mais devagar e ter mais dificuldade a conduzir a perder aqueles 2 minutos de vitamina E.

O que o entardecer nos reservava era o caminho inverso ao da manhã… a não ser que houvesse as tão desejadas reuniões de pais. Quando haviam, ficávamos no colégio até mais tarde e estava criada a atmosfera necessária para umas conversas mais soltas, onde as expressões das caras à nossa volta não vão muito além de silhuetas, onde ruborizar não era visível e onde os risos saem mais sonoros sem o ruído dos dias…

As férias representam para mim um regresso a tudo isso, a um nível de stress mais aceitável, a uma cabeça mais limpa, a um corpo menos pesado e rígido...

quarta-feira, dezembro 13

Desenhos inocentes...







Estes desenhos poderiam revelar uma paz de espírito e uma candura impressionantes...

Pertencem a Angelo Buono, Charles Ng, Gerald Stano, Harrison Graham e Herbert Mullen aos quais estão associados os números 10, +25, 41, +7 e 13.

Estes senhores são conhecidos Serial Killers e os números são o número de mortes de que eles estão acusados.

Incrível não é?

Vejam mais pormenores em http://www.yuppiepunk.org/2005/01/killer-art-serial-killer-art-review.html

terça-feira, dezembro 12

What if...

Às vezes dá-me vontade de escrever ao desafio. Não influenciar em nada as ideias que vão surgindo em catadupa. Não censurar nada. Deixar apenas fluir… Em tempos, achei que não devia ler livros porque dessa forma poderia ter uma escrita cristalina e completamente original. Mas agora já não há nada a fazer. Já me contaminei com livros e jornais o suficiente.

Por vezes penso também que seria interessante fazer o exercício de escrever sem nenhuma lógica, tornando a escrita como um exercício de estado de alma, sem nenhum propósito de parecer coerente e escorreita, sem uma parte introdutória que induza as conclusões finais, através de induções ou deduções orquestradas.
O problema é que textos sem objectivos podem ser um pouco vazios de interesse, não passarem mensagem nenhuma. Seriam basicamente de consumo rápido e rapidamente seriam esquecidos.

Acho que vou começar a fazer uns textos desse género, e depois comprometo-me apenas a corrigir erros ortográficos ou gramaticais, mas prometo não censurar as ideias…

segunda-feira, dezembro 4

Madrid me encanta


Primeira visita oficial e tenho a dizer que gostei muito de Madrid. Gostei tanto de Madrid que resolvi aproveitar ao máximo tudo o que a cidade tinha para oferecer, principalmente no que se refere à sua noite fantástica. Esta opção noctívaga trouxe apenas o inconveniente de não me permitir relatar como foram os meus dias por lá, por grave amnésia e entorpecimento provocado pelo álcool. Não consigo referir o nome de um único restaurante, bar ou discoteca por onde passei. De resto, lembro-me apenas do nome de duas ruas principais, o Paseo de la Castellana e a Gran Via, e da rua onde fiquei instalado que se chamava Calle Cervantes.

Ainda assim, vou relatar acontecimentos esporádicos e situações de que me lembro, sem arriscar o seu enquadramento no tempo e por vezes no espaço.

Consegui dar um pulo ao Thyssen-Bornemisza Museum of Art, que tinha uma colecção organização por ordem de antiguidade. Começava no 2º andar com quadros do Século XI da escola italiana, francesa e flamenga e terminava com arte moderna, passando pelo meio por pintores norte-americanos do Século XIX.
O meu fim-de-semana cultural ficou-se por esta visita... Conheço pessoas que sempre que visitam uma cidade deixam algum museu ou espaço por visitar, de forma a deixarem um teaser para uma próxima visita. Posso sempre pensar, para não me deixar preencher por um sentimento de culpa, que estou muito mais profissional e estou a dar-me a oportunidade de não uma mas várias próximas visitas.

Adorei os madrilenos, que são muito simpáticas, adorei as tapas que acompanhavam as imperiais, e achei piada à quantidade de brasileiros que se querem fazer passar por madrilenos mas que rapidamente são apanhados ao fim de duas ou três palavras.
Houve um brasileiro, que estava a distribuir flyers no meio da rua para aliciar as pessoas para um determinado bar, que me esteve a explicar que em Madrid se ganhava mais do que em Lisboa… o que eu já suspeitava. Mas o que eu achei piada foi um desabafo que o senhor fez em relação à situação dos imigrantes brasileiros em Portugal.
O senhor veio com a seguinte pérola, e passo a citar (convém ler com sotaque brasileiro): “Cara, me disseram que em Portugal a Policial Federal (?!?!?) está expulsando os imigrantes brasileiros ilegais….”.

quarta-feira, novembro 29


Sabem aquela sensação limite em que temos várias coisas para fazer, cada um delas objectivamente fácil de fazer, mas que todas juntas nos transmitem uma sensação de nebulosidade no horizonte, toldando-nos os movimentos físicos e psíquicos, fazendo-nos mergulhar na apatia misturada com uma ansiedade muito grande?

É exactamente isso que estou a sentir durante o dia de hoje, e cada vez que faço o exercício de listar as tarefas, prioritizá-las e pegar na primeira, ao primeiro embate desanimo e volto ao estado geral de strogonoff mental.

Acho que estou a precisar de umas férias, ou quem sabe de um reboot ao meu peculiar cérebro…

terça-feira, novembro 28

Estória ou história, eis a questão...

Estava prestes a contar-vos uma história e parei logo nas primeiras linhas para de uma vez por todas desmistificar a utilização do termo história ou em alternativa o termo estória. Perdeu-se uma história (termo que a partir de agora passo a utilizar com mais orgulho e fundamento) e ganhou-se um pouco mais de bom português!
Aqui ficam as palavras do nosso amigo Cláudio Moreno, que não deve ter mais nada para fazer mas ainda assim o que faz faz bem.

A história de "estória"*
Cláudio Moreno**

Perdi a conta dos leitores que me perguntam sobre a famigerada estória. Uns querem saber se realmente existe essa distinção entre estória e história. Outros teriam ouvido que a palavra existiu outrora, mas hoje seria considerada arcaica. Há quem especule que estória tenha nascido de um erro de tradução. Quase todos perguntam se é uma distinção útil e necessária, ou se não passa de supérfluo balangandã. Peço perdão àqueles que fiz esperar, mas aqui vai minha resposta a todos.

Foi João Ribeiro, forte conhecedor de nosso idioma, quem propôs a adoção do termo estória, em 1919, para designar, no campo do Folclore, a narrativa popular, o conto tradicional, objeto de estudo dos especialistas daquela área. E não se tratava de inventar, mas sim de reabilitar (hoje usariam o horrendo resgatar...) uma forma arcaica, comum nos manuscritos medievais de Portugal. Era uma ingênua proposta, paroquial, nascida da inveja compreensível que causa a distinção story - history do Inglês; sem ela, alega o próprio Luís da Câmara Cascudo - para mim, um dos escritores que mais contribuíram para nossa língua -, não se pode entender frases como "Stories are not History", ou títulos como "The History of a Folk Story". Que o mestre Cascudo me perdoe: a intenção era boa, mas sem nenhum fundamento lingüístico.

Em primeiro lugar, a estória medieval não era um vocábulo diferente de história; era apenas uma das muitas variantes que se encontram nos textos manuscritos de nossos copistas, naquele tempo heróico em que a estrutura de nossa ortografia ainda lutava para sedimentar. Ali aparecem história, hestória, estória, istória, estórea (ainda não se usavam os acentos, que são de nosso século, mas não pude resistir). Da mesma forma, vamos encontrar homem, omem, omee (algumas vezes com til no primeiro e) e até ome. Nota-se que o emprego do "h" e das vogais ainda não estava estabilizado na escrita. Entretanto, já no séc. XVI - em Camões, por exemplo - a grafia de homem e história era a que é usada até hoje. Outras línguas da família latina, como o Espanhol e o Francês, também experimentaram essa variedade de formas para história, mas terminou prevalecendo a forma única (historia e histoire, respectivamente).

Em segundo lugar: grande coisa se o Inglês pode fazer a distinção entre story e history! E daí? Como o folclórico Napoleão Mendes de Almeida nos lembra, eles também distinguem entre can (poder, conseguir) e may (poder, no sentido legal e ético): "You can, but you may not" é uma rica frase em Inglês que só poderíamos traduzir com um aproximado "Você pode, mas não deve". Esse autor, que abominava estória, pergunta ironicamente: "Se curtos de inteligência foram nossos pais em não terem descoberto essa história de "estória", curtos de inteligência continuamos todos nós em não forjarmos distinção gráfica e fonética para "poder", para "educação", para "raio", para "oficial" e para outros vocábulos de formas diferentes em Inglês, como curtos de inteligência são todos os outros idiomas que têm palavras com mais de uma significação".

Dessa vez Napoleão bateu no prego e não na tábua. Uma olhada no meu Oxford e me dou conta que para nosso raio, por exemplo, o Inglês tem (1) ray (onde temos "raio de luz", "pistola de raios"), (2) radius (o "raio de um círculo") e (3) lightning (a "descarga elétrica"). É mais do que comum o fato de uma língua fazer distinções vocabulares que outras não fazem. Como tive a oportunidade de mencionar em outro artigo (Atravessando o Canal da Manga), o Espanhol designa com um único vocábulo (celo, celos) o que nós distribuímos por três: zelo, cio e ciúme. Invejamos o story do Inglês? Eles então devem ficar verdes diante de nosso ser e estar, distinção fundamental na vida e na Filosofia, que eles simplesmente desconhecem. Assim são as línguas humanas, na sua (im)perfeição.

Além disso, os amáveis folcloristas que defendiam estória pensavam apenas em distinguir "a História do Brasil das Histórias da Carochinha". Do ponto de vista lingüístico, erraram por todos os lados. Primeiro, erraram porque essa não é uma distinção útil, que justifique sua defesa. O português José Neves Henriques, o severo e consciencioso JNH do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa (já falei sobre ele na seção de Links***), condena essa invenção "brasileira" (ele tem razão: é coisa nossa), tachando-a de "uma palermice, porque, até agora, nunca confundimos os vários significados de história. O contexto e a situação têm sido mais que suficientes para distinguirmos os vários significados". Certo o professor Henriques, errados os folcloristas: ninguém vai confundir a história de um país com a história do bicho-papão.

Segundo, erraram porque enxergavam apenas dois pólos bem definidos: a história que se refere ao passado e ao seu estudo, e a estória da narrativa, da fábula. A experiência nos diz que essas invasões de searas alheias geralmente pecam por um raciocínio simplista, reducionista. Quem mexe no que não entende, termina fazendo bobagem... e não deu outra. Nossos estudiosos não perceberam que a distinção sugerida, apetecível do ponto de vista deles, acabaria criando incertezas e hesitações em frases corriqueiras como "Deixa de histórias!"; "Essa já é outra história"; "Que história é essa?"; "Eu e ela temos uma velha história". Qual das duas formas usar? Por tão pouco benefício, por que assombrar ainda mais os que escrevem em Português? Faço questão de frisar "os que escrevem" - porque aqui, também, reside outra falha da proposta de João Ribeiro: as duas formas não seriam distinguíveis na fala, já que a realização da vogal "E" inicial de estória é geralmente /i/ (como em espada, esperto, etc.). Ambas seriam pronunciadas da mesma maneira: /istória/. E quantas outras palavras, derivadas de história, deveriam ser alteradas? Historieiro? Historiento? As historietas passariam a ser estorietas? Os aficcionados em quadrinhos passariam a usar EQ em vez do consagrado HQ? Como se vê, "muito trabalho por nada", como reza a comédia de Shakespeare.

De qualquer forma, o uso de estória poderia ter ficado confinado ao mundo do Folclore, onde talvez fosse de alguma utilidade. Afinal, não é incomum que certas áreas do pensamento postulem, para uso exclusivo, vocábulos novos ou variações fonológicas ou ortográficas de vocábulos antigos, no afã de obter maior precisão em seus conceitos. Isso se verifica, por exemplo, na Filosofia, na Lógica, na Lingüística, na Psicanálise (onde me chama a atenção a impressionante inquietação lingüística dos lacanianos). Como é natural, essas variantes vão fazer parte de um código específico, cujo emprego passa a ser indispensável para os especialistas dessa área, mas não entram no grande caudal da língua comum. A criação, a utilização e, muito seguidamente, a agonia e morte dessas formas são registradas em discretos dicionários especializados, convenientemente isolados do grande rebanho representado pelos dicionários de uso.

Infelizmente, como nos piores pesadelos dos ecologistas, estória rompeu as cercas de segurança, saiu do pequeno rincão do Folclore e invadiu nossas vidas. O responsável por isso foi João Guimarães Rosa (pudera não!). Como escreve meu mestre Celso Pedro Luft, com uma ponta de inesperada ironia, Rosa decidiu "glorificar, imortalizar a ausência do agá: Primeiras Estórias. Corriam os anos de 1962. Primeiras estórias ... todos os fãs do mineiro imortal ficaram absolutamente alucinados. E foi estória para cá, estória para lá, estória para todos os lados. Uma epidemia. Perdão, uma glória". Depois, em 1967 veio Tutaméia, com o subtítulo "Terceiras Estórias", e o póstumo Estas Estórias, publicado em 1969. Muito tem sido escrito sobre a inovação da linguagem rosiana; a sintaxe de seu narrador é, a meu ver, a criação literária do século. No entanto, sou obrigado a observar que, em termos não-literários, essa inovação é zero. Nenhuma das palavras montadas, deformadas ou inventadas por ele jamais será usada, a não ser por imitadores (que já andam escasseando...). É uma linguagem só dele; funciona admiravelmente no universo de sua obra, mas é seu instrumento pessoal, e nunca será nosso. Ouso dizer que a única influência rosiana no Português foi a divulgação desse equívoco que é estória. Tenho certeza de que Guimarães Rosa, místico de quatro costados, entenderia: deve ser vingança dos deuses da Língua.

sexta-feira, novembro 17

Na escola e no trabalho, tens amigos comó caralho!

Costuma-se dizer que nos tempos de escola é que era! O tempo para não fazer nada, o tempo para fazer tudo, o tempo para estar com os amigos…
E é precisamente nesta última parte que eu me quero reter. Amigos que se fazem na escola. Amigos que não se fazem no trabalho. Porque os amigos do trabalho não se escolhem. Mas também não se escolhem os amigos de escola. E os amigos de escola são nossos amigos e nós somos amigos deles. Acho que a única coisa que muda são as pessoas, não são as situações. Eu também já mudei. Costuma-se dizer que as pessoas evoluem… Será mesmo assim? Será que evoluir é mesmo ganhar a maturidade suficiente para dizer meia dúzia de coisas estúpidas a um colega e não ter o mínimo de ressentimentos, ou inversamente ouvir um gajo a chagar-nos a cabeça e manter a cabeça fria? Será que isso não é roubar-nos os instintos mais básicos e tornar-nos seres frios e calculistas? Costuma-se dizer: “…mas tem que ser…senão não sobrevives.” E eu sei que isso é verdade, mas não queria que fosse assim…

sexta-feira, novembro 10

Saudades dos tempos em que tinha tempo

Ontem aproveitei o facto de estar pelo escritório com pouco trabalho (pelo facto de não estar de momento envolvido em nenhum projecto) para sair um pouco mais cedo.
Estava a pensar ir para casa mas resolvi sentar-me numa esplanada em pleno centro de Lisboa a beber uma imperial.
Desci a Casal Ribeiro até ao Largo da Estefânia, e virei à esquerda para a Rua de Dona Estefânia.
Parei numa tasca tipicamente portuguesa, que tinha umas mesas verdes metálicas cá fora, numa rua de árvores grandes e frondosas, com imensa gente a subir e a descer.
Passaram velhotes, passaram casais jovens, passaram grupos de amigos, saíram pessoas de carros que lhes tinham dado boleia, passou um casal muçulmano de certeza recém aterrado em Lisboa, passaram para cima e para baixo dois jovens a acartar pufs e cadeiras em aparente mudança de casa. Enfim, uma montra de histórias ali a desenrolar-se à minha frente.
Já a meio da minha segunda imperial, juntou-se à mesa do lado um grupo de 4 amigos, 3 rapazes e uma rapariga, que estavam sempre na conversa. A partir daí, fiquei deliciado a ouvir a conversa deles.
Aquelas conversas despretensiosas de quem não tem muitas preocupações e está a rir de 10 em 10 minutos…
Apenas um deles era de Lisboa, ao que percebi, e os outros tinham vindo todos fazer a faculdade cá.
Tinham todos algum sotaque e a certa altura começaram a falar de que existia a ideia generalizada de que o sotaque em Lisboa era o sotaque padrão e que os lisboetas achavam que não tinha sotaque. Mas tinham!!! Andavam lá num bate boca e vinha a gargalhada generalizada 5 minutos depois.
Estava mesmo ao pé deles, mas devia parecer a 2 mundos de distância porque olhavam para mim com alguma reverência pelo facto de estar engravatado.
Mal sabiam eles que me estavam a servir a refeição perfeita para acompanhar aquelas imperiais. Uma refeição de boa disposição e juventude, cabeça limpa e desanuviada, a sensação de despreocupação.

segunda-feira, outubro 30

Direito à vida com dignidade

Durante as minhas férias, um amigo meu emprestou-me um livro muito interessante, que se intitula Freakonomics. Trata-se de um livro de um escritor que pertence a uma nova geração de economias que pretende descomplicar os conceitos associados à Economia utilizando exemplos concretos e fáceis de perceber pelo leitor. Entre outras coisas aborda a temática de como algumas decisões políticas aparentemente marginais se reflectem enormemente no dia a dia das pessoas.
Passo a explicar. Um dos episódios retratados no livro fala sobre clima de insegurança crescente que se vivia nas ruas, nos anos 90, nos Estados Unidos da América. Por essa altura, os índices de criminalidade cresciam todos os anos a dois dígitos, e todas as medidas de combate ao crime postas em prática na altura pareciam não surtir o desejado efeito. Num determinado momento, quando já não havia esperança de que alguma coisa de alterasse o rumo dos acontecimentos, a curva ascendente de criminalidade estabilizou e começou a cair em flecha até aos dias de hoje, em que os níveis são perfeitamente aceitáveis.
Na altura, diversas teorias avançaram para tentar explicar o fenómeno mas nenhuma foi demasiado consistente com excepção de uma, que ninguém estaria perto de imaginar. Alguém se lembrou de olhar vários anos para trás e perceber se encontrava alguma variável que pudesse explicar o fenómeno, chegando a uma conclusão genial: a principal causa da descida da criminalidade devia-se a uma medida tomada 20 anos antes, que tinha sido a liberalização do aborto.
Encontrada a causa, ficava muito fácil de explicar o fenómeno. De uma forma resumida, ninguém nasce com propensão para o crime, mas o meio envolvente em que as crianças de desenvolvem e os modelos que as rodeiam acabam por influenciar determinantemente o seu comportamento futuro. Assim sendo, e tendo em conta a existência do fenómeno do aborto ilegal, que era oneroso e só algumas mulheres podiam suportar, a maioria das crianças indesejadas nasciam em meios pobres e num contexto de mais violência. Ressalvando-se o facto de que mesmo uma criança pobre e indesejada, rodeada de maus modelos por vezes ser originar um adulto perfeitamente integrado e bem comportado (tal como uma criança rica pode tornar-se um adulto criminoso e violento), o que acontece é que estatisticamente uma criança que nasça num meio pobre sem ser desejada é mais propensa a praticar crimes que uma criança rica e desejada.
Tendo isto em mente, e tendo sido legalizado o aborto nos EUA, diminuiu drasticamente a quantidade de crianças com propensão à prática de crimes em adultas.
Transportando-nos agora para a realidade portuguesa, e estando na véspera de mais um referendo ao aborto, venho expressar o meu voto na liberalização do aborto, como forma de melhorar as condições sociais de todos nós.De facto, aquilo a que muitos partidos chamam de decisões sociais, como rendimentos mínimos garantidos, substituição de barracas por casas, acompanhamento social de crianças em risco, podem muito bem ser vistos como verdadeiras medidas económicas que no futuro terão como resultado uma sociedade com melhor qualidade de vida para todas as pessoas.

quarta-feira, outubro 25

Sobreiro


É do tronco do sobreiro que se extrai a cortiça, de que Portugal é o maior produtor mundial. É com essa finalidade que o sobreiro é cultivado desde a Antiguidade. A primeira cortiça, suberosa, pouco elástica, tem pouco valor.
Eliminada esta capa, aos vinte anos de idade, o sobreiro desenvolve um súber macio de alta qualidade, que pode descortiçar-se de 10 em 10 anos. Depois de descortiçado, o tronco apresenta uma cor pardo-avermelhada, como no exemplo que aqui se apresenta.
As folhas medem 2,5 a 10 cm por 1,2 a 6,5 cm, de cor verde escura e sem pelos. Têm forma denticular, uma nervura principal algo sinuosa e 5 a 8 pares de nervuras secundárias. Os frutos são secos, de cor castanho-amarelado e revestidos por uma cúpula com escamas lanceoladas.

terça-feira, outubro 24

Nogueira


A nogueira não é originária das nossas latitudes, mas adaptou-se a elas há muito tempo. É originária do Sudoeste Asiático e do Mediterrâneo Oriental e foram os Romanos que a introduziram na Europa. Apresenta diversas variedades cultivadas, que geralmente se reproduzem por enxertia.
As suas sementes, as nozes, de sabor agradável e ricas em óleo, consomem-se directamente ou são espremidas para obter o óleo de nozes, que se utiliza como óleo alimentar, como combustível ou como base de determinadas pinturas. Em anos de boa colheita, uma árvore de copa grande pode produzir até 150 kg de nozes.
A madeira da nogueira é considerada uma das mais valiosas das diversas classes de madeira existentes entre nós. É de uma dureza comparável à do carvalho, mas fácil de trabalhar, e além disso é extraordinariamente decorativa pelos tons vivos e escuros do seu durame.
É uma madeira utilizada sobretudo no fabrico de móveis e no revestimento interno das habitações, sendo também muito requisitada para trabalhos de talha e para culatras de armas de fogo.
A nogueira cultiva-se fundamentalmente pelos seus frutos e necessita de solos profundos, ricos em nutrientes e protegidos das geadas tardias, pois as suas flores são muito sensíveis. Dão-se bem à beira dos rios.
É uma árvore com uma copa largamente ramificada, sendo os ramos inferiores grandes e sinuosos e os mais pequenos densos e retorcidos.
Pode atingir os 30 metros de altura e é reconhecível pelas suas folhas pinuladas, alternas, com os folíolos inteiros, que aumentam claramente de tamanho do pecíolo até à ponta. As folhas, quando esmagadas, e a casca verde dos frutos lançam um intenso e característico aroma.

segunda-feira, outubro 23

Choupo-negro


O choupo ou álamo negro, assim chamado pela cor verde escura da sua folhagem, é uma das três espécies de choupos que crescem espontaneamente na Europa (as outras são o choupo-branco e o choupo-tremedor).

É uma árvore que também em Portugal cresce espontaneamente, embora cada vez mais se proceda à plantação de outras variedades e híbridos criados artificialmente, dado o seu interesse comercial. Esse interesse deriva do facto de o choupo ser uma árvore que cresce rapidamente (comparados com as píceas, podem produzir o dobro da madeira em apenas um terço do tempo) e exige pouco trabalho.

Normalmente facultam rendimentos apenas 10 anos após o seu plantio. A sua madeira, leve, macia, branca e de pouca durabilidade, emprega-se no fabrico de fósforos, colheres de pau e caixas.

Chega a atingir 35 metros de altura e pode durar 300 anos. Tem preferência por solos húmidos, como por exemplo as margens de rios ou ribeiras. As suas folhas, triangulares e palmadas, com 5 a 8 cm por 6 a 8, têm as margens denteadas e translúcidas. A página superior é verde-escuro e a inferior é mais clara, amarelecendo quando envelhece.

domingo, outubro 22

Chuva

Cai a chuva, ploc, ploc
corre a chuva ploc, ploc
como um cavalo a galope.

Enche a rua, plás, plás
esconde a lua, plás, plás
e leva as folhas atrás.

Risca os vidros, truz, truz
molha os gatos, truz, truz
e até apaga a luz.

Parte as flores, plim, plim
maça a gente plim, plim
parece não ter mais fim.

Luísa Ducla Soares, A Gata Tareca e Outros Poemas Levados da Breca, Teorema

segunda-feira, outubro 2

Hibernação

Desde que regressei dos Açores que não tenho tido muita imaginação para popular o blog. Assim que a imaginação regressar prometo actualizações! Até ao próximo post.

terça-feira, setembro 12

Viagem à Ilha de Santa Maria

À saida da ilha de São Miguel...

Numa praia na ilha de Santa Maria...

No meio do Oceano Atlântico de volta à ilha de São Miguel...

quinta-feira, setembro 7

Voltar para casa...


Já é oficial.
A minha estadia pelos Açores - que já se prolongava há 12 meses - está a semana e meia de terminar.
Durante um ano fui residente em São Miguel com direito a 4 dias por mês para dar uma de turista em Lisboa.
Tive de multiplicar-me como nunca imaginei para poder estar com todas as pessoas de quem gosto, num ritmo desenfreado e desgastante.
Por outro lado, serviu-me de oportunidade para perceber quem é que realmente me alimenta o espírito, os amigos de quem sinto mais falta e os sítios onde me sinto mesmo bem!
Da experiência dos Açores levo também mais experiência profissional, mais amigos que fiz por cá e menos medo de andar de avião :)
Levo também 12 meses sem ginásio... Por isso, o próximo passo é a inscrição num ginásio mal chegue a Lisboa. Vai saber mesmo bem!